Diário de uma (Ex) Au Pair - Parte 15
Se tem uma coisa que o tempo nos dá é a capacidade de olhar para os nossos maiores micos do passado e dar boas risadas.
Nesses dias, mexendo nos meus arquivos antigos da época em que fui au pair na Irlanda, me deparei com uma das histórias mais constrangedoras — e fofas — que vivi naquele país. Em 2011, eu estava no meio do furacão do intercâmbio, tentando me adaptar à rotina de cuidar de uma garotinha irlandesa (a pequena Bronagh) e aprender inglês ao mesmo tempo.
Em um momento de pura ingenuidade linguística, acabei ensinando uma palavra em português que virou um chiclete na cabeça dela. O resultado? Uma cena memorável no meio do jantar em família, um pai me encarando e eu desejando que o chão da cozinha se abrisse sob os meus pés.
A reflexão da ex-au pair (O olhar de hoje)
Hoje, com mais bagagem de vida e olhando para aquela cena com o distanciamento do tempo, vejo como a infância tem um filtro fascinante para o mundo. As crianças não carregam o peso moral, o tabu ou a malícia que nós, adultos, colocamos nas palavras. Para aquela garotinha, aquela sonoridade brasileira cheia de sílabas estaladas era apenas uma grande brincadeira métrica, um trava-língua exótico que ela adorava repetir.
O pavor que me corroía por dentro naquele jantar não era da criança; era o meu próprio medo cultural de ser mal interpretada, o receio de ultrapassar limites éticos na casa de uma família de outra cultura que tinha me acolhido.
Naquela época, eu achava que o meu trabalho como au pair era apenas ensinar coisas práticas — como contar de 1 a 10 em português — e manter a rotina em ordem. Hoje percebo que a convivência diária com uma criança em outro país estava, na verdade, me ensinando sobre presença, comunicação não verbal, afeto genuíno e desapego.
Cuidar de alguém nos ensina que o amor constrói pontes invisíveis no cotidiano, mesmo quando sabemos que a despedida é um destino inevitável.
A vida de au pair é feita desses contrastes: entre o susto de um mico épico e a doçura de guardar para sempre a fotinha daquela criança na carteira. No fim das contas, por trás de todas as saias justas e das barreiras do idioma, o que realmente fica gravado na memória é a leveza de aprender a rir de nós mesmos.
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