A ovelha é, sem dúvidas, um dos maiores símbolos da cultura e da paisagem irlandesa. Há quem diga que a população desses animais por lá passa do dobro do número de habitantes do país — diz a lenda urbana que chegam a cerca de 8 milhões, espalhadas pelos campos verdes e vales montanhosos.
Se o número é exato ou não, pouco importa quando se está lá: elas realmente não passam despercebidas. Estão por toda parte, emoldurando os cenários da Irlanda, da Escócia e da Inglaterra, além de estamparem praticamente todas as vitrines de lojas de souvenirs. Lembro-me de ter levado canecas com estampa de ovelhinhas de presente para pessoas queridas no Brasil, de tão lindas e carismáticas que são.
Para além do charme visual que encanta os visitantes, essas criaturas são as verdadeiras guardiãs da paisagem. Aquele tom de verde vivo e a vegetação perfeitamente "aparada" dos morros e falésias da ilha existem, em grande parte, graças ao pastoreio secular desses animais. Raças rústicas de montanha, como a Kerry Hill ou a Blackface Mountain, foram moldadas para resistir ao vento gelado e ao clima úmido das terras altas, tornando-se símbolos vivos de adaptação e resistência.
Existe também um encanto místico e espiritual profundo em torno delas. No folclore celta, a ovelha representa pureza, docilidade e a renovação da Terra, enquanto sua lã era vista quase como um manto de proteção divina contra os rigores do inverno e os espíritos do frio. Essa energia se conecta fortemente à Deusa Brígida — divindade celta do fogo, da cura e da sabedoria, que também protegia os rebanhos. Com a cristianização da Irlanda, sua figura foi sincretizada em Santa Brígida, mantendo a ovelha e o manto de lã como ícones de acolhimento, proteção e nutrição espiritual. Mais tarde, com a chegada de São Patrício, a imagem do pastor e seu rebanho integrou-se com perfeição à iconografia local, simbolizando a mansidão e a fé do povo irlandês.
Historicamente, a criação de ovelhas e o cultivo de raízes eram a base da subsistência das famílias. Da ovelha tirava-se o sustento, o aquecimento e a vida. Olhar para esses rebanhos nos pastos irlandeses é compreender um pouco da própria história, fé e resiliência do país.
E, para quem está praticando o idioma no dia a dia da viagem: ovelha em inglês é sheep.
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