Fazer um intercâmbio dar certo exige muito mais do que recursos financeiros: exige garra, maturidade e uma enorme capacidade de adaptação. Quando saímos da nossa zona de conforto e nos mudamos para outro país, deixamos para trás nossas referências e a rede de apoio mais próxima. De repente, a vida adulta cobra presença total em detalhes simples, mas que pesam: cozinhar, manter a casa organizada, fazer compras e gerenciar as contas em uma moeda diferente. Para quem nunca precisou lidar com essa autonomia antes, o impacto inicial pode ser avassalador — embora seja justamente aí que residam o maior crescimento e a indescritível sensação de independência.
Durante o meu período na Irlanda, presenciei histórias que ilustram bem essa virada de chave. Uma delas foi a do flatmate de um amigo. Ele havia acabado de voltar de uma viagem aos Estados Unidos, encantado com o estilo de vida americano, quando decidiu de última hora que estudaria na Irlanda. O problema começou na falta de preparação: leu alguns blogs de forma superficial, idealizou o país como um paraíso sem defeitos e, em menos de um mês, já estava desembarcando em Dublin.
Vindo de uma família bastante estruturada e bem-sucedida, o choque de realidade foi imediato. A frustração nos primeiros dias foi gigante, e ele se viu tomado pelo arrependimento. Lembro de conversar bastante com ele nessa fase inicial, tentando incentivá-lo a dar uma chance ao processo. Voltar para casa logo no primeiro impacto parecia precipitado, e ele decidiu resistir mais um pouco.
A busca por moradia, que já é um desafio clássico na Ilha, virou um tormento. Ele não se adaptava à arquitetura local, achava os imóveis antigos e encontrava defeito em tudo. A incerteza dele gerava uma onda de preocupação na família, no Brasil. Com o tempo, conseguiu se mudar para um apartamento mais novo, ao lado de amigos especiais que verdadeiramente o acolheram. O ambiente melhorou, mas o incômodo interno permaneceu.
Conforme as semanas passavam, o desânimo foi se tornando cada vez mais evidente. Ele não encontrava motivação nos estudos e nem no estilo de vida irlandês. Enquanto a maioria dos intercambistas se maravilhava com a história e a natureza do país — como em passeios clássicos ao Castelo de Malahide, que eu particularmente adorava —, para ele nada fazia sentido. Aquele cenário simplesmente não conversava com a sua essência.
Percebendo que não adiantava insistir em algo que não o preenchia, ele decidiu reorganizar a rota: comprou uma passagem para os Estados Unidos, matriculou-se em um curso em Los Angeles e partiu para o destino que realmente desejava. A notícia pegou a família de surpresa na época, mas foi a decisão mais honesta que ele poderia ter tomado consigo mesmo. Embora o convívio tenha sido breve, sua passagem deixou um aprendizado marcante para todos nós.
A grande lição que fica dessa experiência é uma só: planejamento e perfil de alinhamento.
Conhecer a fundo a cultura, o clima e a dinâmica do destino é crucial antes de fechar qualquer contrato. A Irlanda tem uma beleza única, calcada em história, tradição, paisagens verdes, cultura de pubs e um clima predominantemente frio e chuvoso. Se o que te move são grandes metrópoles, luzes intensas e um estilo de vida mais solar ou agitado no padrão norte-americano, insistir na escolha errada pode custar caro — emocional e financeiramente.
O intercâmbio é um investimento alto e uma escolha profunda. Ter a clareza sobre quem você é e o que busca em uma experiência internacional é o primeiro e mais importante passo para evitar percalços no meio do caminho.
E você? Acha que a escolha do país precisa ser mais racional do que emocional? Deixe sua contribuição nos comentários!
Sobre a autora: Luciana Oliveira é psicóloga e especialista em Recursos Humanos. Compartilha conteúdos sobre planejamento, carreira, intercâmbio e a vivência prática na Irlanda no blog Jornada pela Irlanda.
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Sem sustos. É isso que um bom planejamento traz.Há um ano e meio planejo essa viagem. E, acredite, o que passei nesse tempo me encoraja a cada dia a esperar o momento da partida pra Ilha Esmeralda. A grande dificuldade foi a escolha da cidade. Após alguns meses de pesquisa decidi por Galway. Acho que por afinidade mesmo. Cidade menor, universitária e com um clima histórico sensacional. Fora isso teve a questão financeira, a galera que não acredita em você e dessa maneira a gente vai passando e sempre, sempre pesquisando.
ResponderExcluirAbraço
concordo plenamente com vc!
ResponderExcluirNao há vitoria sem esforço. Intercambio nao é viagem de turismo, é coisa seria que merece muita atenção e tb aos detalhes