A Magia Medieval de Kilkenny e o Prazer da Própria Companhia

Havia um bom tempo que eu alimentava o desejo de conhecer Kilkenny, no condado de mesmo nome. Quando finalmente encontrei uma brecha na rotina, não consegui companhia para a viagem. O que para muitos seria motivo para cancelar os planos, para mim, tornou-se um convite. Fazer as malas e viajar sozinha é um exercício libertador; é aprender a apreciar a própria companhia e abraçar o silêncio interno enquanto o mundo lá fora acontece. O dia amanheceu com aquele típico clima irlandês: chuvoso e frio, um convite irrecusável para continuar debaixo das cobertas. Pensei mil vezes antes de me levantar para pegar o primeiro trem, que partiria pontualmente às 07h20. Mas a ansiedade por desvendar o novo falou mais alto. Dei um salto, arrumei-me correndo e saí de casa ainda no escuro. A viagem de trem foi um daqueles momentos de pura introspecção: fones de ouvido, uma boa trilha sonora e os olhos perdidos na imensidão verde das paisagens irlandesas que passavam pela janela. Cheguei à cidade por volt...

[2011] Sentimentos no Brasil: Estereótipos, Choques e a Imagem do Nosso País

Olhando para trás, resgatei uma memória marcante de 2011, durante um período de férias no Rio de Janeiro. Em uma dessas ironias perfeitas que só o destino é capaz de orquestrar, os pais das crianças para as quais eu trabalhava na Irlanda vieram ao Brasil para participar de uma competição militar do Exército. O alojamento deles ficava na Vila Militar do Rio de Janeiro, por pura coincidência, muito próximo da minha casa naquela época e, ao saberem da minha presença na cidade, ligaram-me para marcar um reencontro.

Assim que cheguei ao local combinado, a primeira pergunta deles revelou a força dos hábitos culturais: quiseram logo saber onde ficava o pub mais próximo. Sorri ao responder que ali não tínhamos o conceito de pub tradicional e, diante da resposta, pediram para que eu os levasse a um McDonald's. O restaurante mais acessível exigia uma viagem de cerca de 20 minutos de ônibus — um trajeto que atravessava um trecho da zona norte carioca distante dos cenários paradisíacos dos cartões-postais. Ao encarar o cotidiano cru da cidade real, percebi o franzir de testa, a frustração velada e um certo sobressalto no olhar deles. Confesso que passei todo o percurso torcendo intimamente para que nenhuma situação de violência acontecesse, consciente de como a cobertura midiática internacional costuma pintar o Brasil sob cores sombrias, associando o país quase exclusivamente à miséria e à criminalidade.

Durante a nossa conversa, meus chefes comentaram, surpresos, sobre os valores abusivos das ligações telefônicas no Brasil. Concordei e estendi a reflexão: no país, não apenas a telefonia é cara, mas também os eletrônicos, os veículos e os custos de viagem. Foi então que meu chefe disparou uma pergunta direta, com a sinceridade desconcertante de quem observa de fora: "Por que tudo é tão caro se o país é considerado tão pobre?". Saber que, aos olhos deles, estávamos catalogados sob o rótulo simplista de "terceiro mundo" foi um golpe que precisei engolir a seco.

A ignorância geográfica, contudo, é uma via de mão dupla. No próprio alojamento militar, uma brasileira chegou a perguntar à minha chefe em qual região da América do Norte a Irlanda estava localizada — sem contar os incontáveis patrícios que sequer haviam ouvido falar da ilha gelada. Em contrapartida, muitos estrangeiros supõem que a capital do Brasil é Buenos Aires, Rio de Janeiro ou São Paulo, enquanto Brasília permanece uma ilustre desconhecida no imaginário global.

A visão internacional sobre o Brasil é profundamente moldada por clichês folclóricos. Ao longo das minhas viagens pela Europa, bastava revelar minha nacionalidade para que o interlocutor associasse o país imediatamente ao Carnaval — mesmo sem compreender a profundidade cultural da festa —, além do futebol, do samba e das praias. Outros ainda carregavam ideias arcaicas de que falávamos espanhol ou de que vivíamos em uma realidade pré-urbana. Recordo-me de uma jovem irlandesa que me perguntou, com toda a naturalidade do mundo, se o idioma oficial do Brasil era o espanhol.

Com os grandes eventos esportivos que o país se preparava para sediar nos anos seguintes, era evidente que a imagem do Brasil se tornaria um dos temas centrais dos debates globais. Olhando para trás sob a perspectiva de hoje, percebo que aquele choque cultural me ensinou uma lição valiosa: em vez de nos ressentirmos com os estereótipos distorcidos que os estrangeiros alimentam a nosso respeito, cabe a nós examinar a postura com que nos apresentamos ao mundo. 

Comentários

  1. Eu jah vi muito disso tb, nos chats que eu entrava quando estudava ingles e italiano.
    A culpa disso nao sao deles, A culpa é NOSSA!

    brasileiro acha bonito mostrar o Carnaval, bundas e futebol mas nao gosta quando somos discriminados lá fora. Enquanto tivermos essa mentalidade nada vai mudar.

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  2. Ei moça, acabei de descobrir seu blog, buscando sobre a Irlanda e acho que cometeu uma "gafe" com os gringos.
    Fui pela primeira vez ao Rio de janeiro no ultimo fds, e fui a um PUB muito bacana em Ipanema, do site abaixo, e sei que há outros na região. Lá, inclusive, conhecemos gringos de vários países. É um lugar que acho que os irish se sentiriam em casa!
    http://www.lordjimpub.com.br/

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  3. Olá!!

    Sim, eu cometi uma grande gafe, eu deveria levá-los para a zona sul do Rio de Janeiro, mas eles não quiseram, estavam cansados dos treinamentos do exército e queriam apenas um lanche rápido, porém o lugar que eles estavam hospedados não tinha nada de bom por perto, só me restou levá-los ao Mc Donald´s mesmo e torcendo para não acontecer algo ruim com eles, porque onde eles estavam hospedados é considerado área de risco, infelizmente.

    Obrigada pelo comentário e pela dica do pub Irish.

    Att,

    Luciana Sousa

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