Um Mergulho no Escuro: Das Praias de Espinho ao Subúrbio Carioca
(Atenção: Contém um pequeno spoiler de mais um trecho do meu livro Vida Sobre Vidas! Relembrando que a obra está disponível na Amazon e é gratuita para assinantes do Kindle Unlimited / KDP Select!)
O Rio de Janeiro é uma cidade historicamente ligada a Portugal, fundada por portugueses e com um comércio que foi, por muitos anos, marcado por essa presença. A cidade recebeu milhares de imigrantes, principalmente no início do século XX, quando muitos homens, mulheres e famílias inteiras deixavam a Europa em busca de novas oportunidades e condições de vida. A história da minha família faz parte desse grande fluxo de coragem e esperança.
A mudança de realidade, no entanto, foi um grande choque. Em Portugal, a vida guardava um certo conforto: moravam a dez minutos de uma bela praia em Espinho, contavam com o suporte direto da família e desfrutavam de uma rotina estruturada. De repente, viram-se adaptando-se ao subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro de Pilares, enfrentando os desafios e as limitações de quem começa absolutamente do zero em um novo país.
Apesar de todas as dificuldades do recomeço e dos reveses da vida, sinto uma gratidão profunda pela audácia dos meus avós. Afinal, a minha própria existência só foi possível porque eles tiveram a força de atravessar o oceano rumo ao desconhecido.
Com o passar dos anos, o impulso de desfazer a imigração e retornar às origens ainda pulsou na família. Houve a intenção de voltar para Portugal, mas o solo brasileiro já havia exercido sua força: a família cresceu, raízes foram fincadas e a vida no Brasil selou o destino de permanecer.
Sem o caminho de volta, minha avó Celeste assumiu com bravura a responsabilidade de sustentar e guiar aquele novo capítulo. Transformou a costura em seu ofício e, com mãos habilidosas e incansáveis, tecia não apenas roupas, mas a própria esperança para cuidar dos filhos e netos. Focada em reconstruir a vida no Rio de Janeiro, canalizou toda a sua energia para o lar e para a família.
Ela partiu em 2009, aos 90 anos, deixando um vazio imenso. A saudade era avassaladora, até que o invisível trouxe o conforto que eu precisava. Em um sonho marcante, encontrei-a junto a uma fonte de águas puras. Diante da minha aflição, ela me acalmou com a doçura de sempre: disse que estava bem, que havia reencontrado sua própria mãe e prometeu continuar zelando por mim. Anos mais tarde, essa presença protetora se confirmou como um verdadeiro amparo espiritual que me guia até hoje.
Tenho um orgulho imenso dessa história de travessia. As memórias dos meus avós, a força inabalável de dona Celeste e os valores que ela me deixou são tesouros que carrego comigo. É com muito amor que registro essa herança aqui, no nosso cantinho de viagens, partidas e chegadas.
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