Setembro de 2010. Lembro-me perfeitamente daquelas primeiras semanas em Dublin: uma mistura deliciosa de encantamento, frio na barriga e aquela urgência quase física de me situar no mapa e na vida daquela cidade nova. Entre um passeio de reconhecimento e outro, meus passos me guiaram até os portões de ferro da Trinity College.
Eu não estava lá apenas para turistar; precisava oficializar minha presença no país e obter a minha primeira carteirinha de estudante, um pequeno pedaço de plástico que, para mim, parecia o passaporte definitivo para a minha nova identidade como intercambista.
Passar por aqueles portões e deixar o burburinho comercial da Grafton Street para trás é como atravessar um portal no tempo. A Trinity College fica colada ao coração de Dublin, mas, uma vez dentro de suas muralhas de pedra, o ritmo do mundo muda. O som do trânsito dá lugar ao burburinho suave de estudantes do mundo inteiro, ao bater de asas das aves que cruzam os gramados impecáveis e ao eco de passos cruzando os pátios de paralelepípedos. É um daqueles lugares raros onde a arquitetura respira história em cada detalhe.
Fundada em 1592 pela Rainha Elizabeth I, a Trinity é a universidade mais antiga da Irlanda e uma das instituições de ensino mais prestigiadas e tradicionais de todas as Ilhas Britânicas. Caminhar por ali, sob a sombra dos majestosos edifícios de pedra cinzenta e do imponente Campanário (Campanile) que domina o pátio central, faz a gente se sentir incrivelmente pequena — mas, ao mesmo tempo, parte de algo grandioso.
É quase impossível caminhar por aqueles corredores sem pensar nos ecos das mentes brilhantes que moldaram o pensamento, a ciência e a literatura ocidental. Pelos mesmos caminhos que eu trilhava timidamente, outrora passaram gigantes da literatura como Jonathan Swift (autor de As Viagens de Gulliver) e o genial Samuel Beckett. Também foi ali que cientistas de renome deixaram suas marcas, como o matemático Rowan Hamilton e E.T.S. Walton, ganhador do Prêmio Nobel por seu trabalho histórico com a divisão do átomo. A Trinity também foi o berço de grandes líderes políticos, formando figuras históricas como Douglas Hyde, o primeiro presidente da Irlanda, e Mary Robinson, a pioneira que se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de presidência do país.
Mesmo carregando esse peso histórico monumental, o campus não parece um museu estático ou intimidador. Pelo contrário: é um refúgio incrivelmente vibrante e acolhedor. Estudantes dividem os gramados lendo, rindo ou revisando anotações; professores caminham apressados e viajantes do mundo todo contemplam a paisagem.
A melhor parte para quem está apenas começando a explorar a cidade com o orçamento apertado de intercambista? A entrada para caminhar por toda a área externa do campus é totalmente gratuita. É um convite aberto para qualquer pessoa entrar, sentar-se em um banco de madeira e simplesmente respirar aquele ar carregado de tradição, conhecimento e juventude.
Para mim, em setembro de 2010, com a carteirinha de estudante recém-emitida em mãos e os olhos brilhando diante daquela imensidão de pedra, a Trinity College foi o primeiro sinal claro de que eu estava exatamente onde deveria estar.
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