[2011] Jornada Pela Irlanda — Parte II: A Arte de Recomeçar

Hoje dou início aos reposts desta segunda etapa da minha jornada. Reabrir esta memória me faz lembrar que nem toda partida precisa de grandes celebrações para ser inesquecível. Nesta segunda etapa, em mais uma despedida, não tive festinha nem fotografias. Passei o meu último final de semana no Brasil com uma amiga da época — cujas vidas, com o passar do tempo, seguiram caminhos diferentes. Fomos à praia e, na véspera da viagem, sentia aquele friozinho na barriga misturado com uma ansiedade enorme — uma sensação curiosa, pois, mesmo sabendo exatamente para onde estava indo, o ato de reembarcar sempre traz um mistério próprio. A viagem para a Irlanda acabou sendo muito agradável, em grande parte porque vim conversando com o passageiro que sentou ao meu lado. Ao pousar na França, perdi o voo de conexão para Dublin em Paris. Em vez de estresse, remarquei a passagem para o último voo do dia e aproveitei o imprevisto para fazer um passeio espontâneo por Paris na companhia desse meu novo amig...

Universidade Trinity College - Dublin

Setembro de 2010. Lembro-me perfeitamente daquelas primeiras semanas em Dublin: uma mistura deliciosa de encantamento, frio na barriga e aquela urgência quase física de me situar no mapa e na vida daquela cidade nova. Entre um passeio de reconhecimento e outro, meus passos me guiaram até os portões de ferro da Trinity College.

Eu não estava lá apenas para turistar; precisava oficializar minha presença no país e obter a minha primeira carteirinha de estudante, um pequeno pedaço de plástico que, para mim, parecia o passaporte definitivo para a minha nova identidade como intercambista.

Passar por aqueles portões e deixar o burburinho comercial da Grafton Street para trás é como atravessar um portal no tempo. A Trinity College fica colada ao coração de Dublin, mas, uma vez dentro de suas muralhas de pedra, o ritmo do mundo muda. O som do trânsito dá lugar ao burburinho suave de estudantes do mundo inteiro, ao bater de asas das aves que cruzam os gramados impecáveis e ao eco de passos cruzando os pátios de paralelepípedos. É um daqueles lugares raros onde a arquitetura respira história em cada detalhe.

Fundada em 1592 pela Rainha Elizabeth I, a Trinity é a universidade mais antiga da Irlanda e uma das instituições de ensino mais prestigiadas e tradicionais de todas as Ilhas Britânicas. Caminhar por ali, sob a sombra dos majestosos edifícios de pedra cinzenta e do imponente Campanário (Campanile) que domina o pátio central, faz a gente se sentir incrivelmente pequena — mas, ao mesmo tempo, parte de algo grandioso.

É quase impossível caminhar por aqueles corredores sem pensar nos ecos das mentes brilhantes que moldaram o pensamento, a ciência e a literatura ocidental. Pelos mesmos caminhos que eu trilhava timidamente, outrora passaram gigantes da literatura como Jonathan Swift (autor de As Viagens de Gulliver) e o genial Samuel Beckett. Também foi ali que cientistas de renome deixaram suas marcas, como o matemático Rowan Hamilton e E.T.S. Walton, ganhador do Prêmio Nobel por seu trabalho histórico com a divisão do átomo. A Trinity também foi o berço de grandes líderes políticos, formando figuras históricas como Douglas Hyde, o primeiro presidente da Irlanda, e Mary Robinson, a pioneira que se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de presidência do país.

Mesmo carregando esse peso histórico monumental, o campus não parece um museu estático ou intimidador. Pelo contrário: é um refúgio incrivelmente vibrante e acolhedor. Estudantes dividem os gramados lendo, rindo ou revisando anotações; professores caminham apressados e viajantes do mundo todo contemplam a paisagem.

A melhor parte para quem está apenas começando a explorar a cidade com o orçamento apertado de intercambista? A entrada para caminhar por toda a área externa do campus é totalmente gratuita. É um convite aberto para qualquer pessoa entrar, sentar-se em um banco de madeira e simplesmente respirar aquele ar carregado de tradição, conhecimento e juventude.

Para mim, em setembro de 2010, com a carteirinha de estudante recém-emitida em mãos e os olhos brilhando diante daquela imensidão de pedra, a Trinity College foi o primeiro sinal claro de que eu estava exatamente onde deveria estar.

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