A Magia Medieval de Kilkenny e o Prazer da Própria Companhia

Havia um bom tempo que eu alimentava o desejo de conhecer Kilkenny, no condado de mesmo nome. Quando finalmente encontrei uma brecha na rotina, não consegui companhia para a viagem. O que para muitos seria motivo para cancelar os planos, para mim, tornou-se um convite. Fazer as malas e viajar sozinha é um exercício libertador; é aprender a apreciar a própria companhia e abraçar o silêncio interno enquanto o mundo lá fora acontece. O dia amanheceu com aquele típico clima irlandês: chuvoso e frio, um convite irrecusável para continuar debaixo das cobertas. Pensei mil vezes antes de me levantar para pegar o primeiro trem, que partiria pontualmente às 07h20. Mas a ansiedade por desvendar o novo falou mais alto. Dei um salto, arrumei-me correndo e saí de casa ainda no escuro. A viagem de trem foi um daqueles momentos de pura introspecção: fones de ouvido, uma boa trilha sonora e os olhos perdidos na imensidão verde das paisagens irlandesas que passavam pela janela. Cheguei à cidade por volt...

Dún Laoghaire: O Charme Litorâneo da Irlanda

Lembro-me bem de um dos meus dias de folga — o tão aguardado day off — em que decidi ir a Dún Laoghaire acompanhada da Gaby. O acesso é super simples: a cidade fica a cerca de 12 km ao sul do centro de Dublin e a viagem leva apenas 20 minutos usando o DART, o mesmo trem costeiro que segue em direção a Bray.

Dún Laoghaire (Dún Laoghaire–Ráth an Dúin, em irlandês) carrega uma bagagem histórica interessante. A região se consolidou administrativamente após a subdivisão do antigo Condado de Dublin, em 1994, mantendo uma identidade litorânea muito própria. O lugar é fascinante e vibrante: abriga um porto movimentado de onde partem os ferries rumo à Inglaterra e à França, e é um verdadeiro ponto de encontro para quem pratica esportes marítimos.

Para mim, contudo, olhar para aquele porto despertava algo muito mais profundo. Meu amor pelos portos já vem de longa data; afinal, meu bisavô viajava de Portugal até a França para trabalhar em um porto, e a atmosfera marítima sempre carregou lembranças afetivas muito fortes para mim. Estar ali era, de certa forma, conectar-me com as minhas próprias raízes através do mar.

Uma das maiores atrações é o seu extenso pier de pedras, que avança sobre o mar até um charmoso farol no final. É um convite perfeito para uma boa caminhada com vista panorâmica para a baía. Naquele dia, porém, a natureza resolveu nos lembrar de onde estávamos. A temperatura marcava 7ºC, acompanhada de um vento gelado que logo deu lugar à chuva. A imprevisibilidade do clima irlandês sempre foi um espetáculo à parte — nas fotos daquele passeio, é engraçado notar como o céu oscilava entre um azul límpido e um cinza denso em questão de minutos.

Por conta do tempo, não conseguimos explorar tudo o que a cidade oferecia. Ficou faltando uma visita ao People's Park, um belíssimo parque de estilo vitoriano situado no final da George's Street. Mesmo assim, a viagem valeu cada minuto.

Olhando para trás, entendo perfeitamente o fascínio por esses refúgios à beira-mar. Dún Laoghaire nos ensina a abraçar as variações da vida com a mesma leveza com que aceitamos as mudanças do tempo.

“Eu também desejo o mundo dentro de um postal!”















 Obelisco erguido em 1823





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