[2011] Jornada Pela Irlanda — Parte II: A Arte de Recomeçar

Hoje dou início aos reposts desta segunda etapa da minha jornada. Reabrir esta memória me faz lembrar que nem toda partida precisa de grandes celebrações para ser inesquecível. Nesta segunda etapa, em mais uma despedida, não tive festinha nem fotografias. Passei o meu último final de semana no Brasil com uma amiga da época — cujas vidas, com o passar do tempo, seguiram caminhos diferentes. Fomos à praia e, na véspera da viagem, sentia aquele friozinho na barriga misturado com uma ansiedade enorme — uma sensação curiosa, pois, mesmo sabendo exatamente para onde estava indo, o ato de reembarcar sempre traz um mistério próprio. A viagem para a Irlanda acabou sendo muito agradável, em grande parte porque vim conversando com o passageiro que sentou ao meu lado. Ao pousar na França, perdi o voo de conexão para Dublin em Paris. Em vez de estresse, remarquei a passagem para o último voo do dia e aproveitei o imprevisto para fazer um passeio espontâneo por Paris na companhia desse meu novo amig...

O Chamado da Terra Celta: Como a Irlanda Reacendeu Minha Essência Mística

Há lugares no mundo que funcionam como portais para a nossa alma. Quando visitei o museu dos Leprechauns em Dublin, em 2010, registrei aquela experiência com o encantamento de uma intercambista descobrindo o novo. Hoje, em 2026, olho para trás e percebo que a Irlanda operou um movimento muito mais profundo em mim: ela aguçou o meu olhar para os encantos e para a magia, elementos que estavam profundamente adormecidos pela pressa do mundo comum. Estar ali, imersa em uma terra que respira o invisível, foi como relembrar quem eu realmente era — um resgate direto da minha essência mística.

O folclore de um povo nunca é apenas uma distração; ele é a codificação do sagrado na Terra. Para compreender o poder dessa conexão, vale a pena mergulhar na verdadeira história dessas criaturas que guardam os segredos do solo irlandês:

A Essência do Mito: Quem é o Leprechaun?

Figura mitológica central do folclore da Irlanda, o Leprechaun (também conhecido por duende ou gnomo) está longe de ser apenas um clichê comercial. Ele é apresentado como um diminuto homenzinho de 30 a 50 centímetros, de bigode, olhar simpático e um cachimbo na boca. Vestido à maneira antiga — com roupas verdes, avental de couro, sapatos com fivelas e um barrete vermelho ou chapéu de três pontas —, ele carrega sempre um pequeno e gasto martelo.

Isso porque ele é o sapateiro oficial do povo das fadas. Habitante de pequenos arbustos, bosques e florestas, diz-se que ele fabrica apenas dois pares de sapatos por ano. No entanto, são calçados lindíssimos, tecidos com materiais naturais como flores e gotas de orvalho. Existe uma poesia sutil nisso: a certeza de que o sutil e o invisível se vestem com a própria pureza da natureza.

Potes de Ouro e a Astúcia do Invisível

Os Leprechauns são descritos como os grandes conhecedores de tesouros escondidos. A lenda nos ensina que, para obter o seu famoso pote de ouro, é preciso capturar o duende e nunca, sob hipótese alguma, perdê-lo de vista. Se você desviar o olhar por um milésimo de segundo, ele desaparece no ar.

Como bem pontua o autor Brian Froud: “Como acontece com todos esses seres encantados, é importante que você veja o duende irlandês antes que ele o veja, pois ele se torna então mais cooperativo e talvez possa até levá-lo a um de seus potes de ouro escondido. Mas ele é muito astuto e traquina, capaz de desaparecer num piscar de olhos”. Diz-se também que possuem uma moeda de prata mágica que, não importa quantas vezes seja gasta, sempre retorna para a sua bolsa.

Embora evitem os humanos por medo, quando alguém se aproxima com intenções puras e sinceras, eles revelam sua generosidade, sendo capazes de presentear o visitante com suas obras-primas. Essa dubiedade se estende às suas origens: o folclore frequentemente os confunde com os cluricaun, criaturas mágicas que habitam adegas de vinho. Para alguns autores, os dois são facetas do mesmo ser, manifestando-se de formas diferentes dependendo do momento do dia ou do ano.

Até a etimologia do nome guarda o mistério das eras antigas. "Leprechaun" pode vir do gaélico luacharma'n ("meio-corpo") ou leith brogan ("sapateiro"). Outra vertente aponta para Luch-chromain, que significa "pequeno Lugh corcunda", fazendo uma ligação direta com Lugh, uma das divindades mais poderosas do panteão celta.
O Reencontro com o Sagrado

Em 2010, finalizei aquele post brincando que gostaria de encontrar um deles pelas ruas de Dublin para me trazer sorte. Em 2026, a minha compreensão expandiu. Percebo que o "pote de ouro" que os Leprechauns guardam não tem nada a ver com o plano material; o verdadeiro tesouro é a capacidade de voltar a se sintonizar com o mistério do mundo.

A vida cotidiana muitas vezes nos afasta da nossa espiritualidade natural, nos fazendo esquecer dos fios invisíveis que regem as coisas. A Irlanda, com suas névoas, suas pedras ancestrais e suas lendas vivas, rompeu esse anestesiamento em mim. Olhar para o lúdico e para o mítico me permitiu abrir os canais da minha intuição e acolher o meu lado mais conectado à magia.

Não precisei cruzar com um duende físico para encontrar o tesouro. O verdadeiro misticismo foi perceber que o encanto que eu via naquelas lendas celtas era, na verdade, um espelho da minha própria alma, que pedia permissão para voltar a brilhar.

E você? Já permitiu que o mistério do mundo tocasse a sua essência hoje?

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