[2011] Jornada Pela Irlanda — Parte II: A Arte de Recomeçar

Hoje dou início aos reposts desta segunda etapa da minha jornada. Reabrir esta memória me faz lembrar que nem toda partida precisa de grandes celebrações para ser inesquecível. Nesta segunda etapa, em mais uma despedida, não tive festinha nem fotografias. Passei o meu último final de semana no Brasil com uma amiga da época — cujas vidas, com o passar do tempo, seguiram caminhos diferentes. Fomos à praia e, na véspera da viagem, sentia aquele friozinho na barriga misturado com uma ansiedade enorme — uma sensação curiosa, pois, mesmo sabendo exatamente para onde estava indo, o ato de reembarcar sempre traz um mistério próprio. A viagem para a Irlanda acabou sendo muito agradável, em grande parte porque vim conversando com o passageiro que sentou ao meu lado. Ao pousar na França, perdi o voo de conexão para Dublin em Paris. Em vez de estresse, remarquei a passagem para o último voo do dia e aproveitei o imprevisto para fazer um passeio espontâneo por Paris na companhia desse meu novo amig...

Linha Tênue da Rotina de Au Pair

Um dos grandes desafios para mim como au pair live-in era o fato de morar exatamente onde eu trabalhava. Essa configuração inevitavelmente diluía as fronteiras do tempo; mesmo nos meus dias de folga, eu acabava trabalhando de alguma forma, esticando um horário aqui ou atendendo a uma demanda ali, simplesmente por estar presente no mesmo teto. Era por isso que, sempre que o final de semana chegava, eu fazia questão de pegar o trem e passear em Dublin — era a minha forma de mudar de cenário, arejar a mente e garantir um distanciamento real do espaço de trabalho.

Além do confinamento geográfico, havia um componente emocional ainda mais complexo: o choque de identidade. No Brasil, eu já tinha a minha independência, a minha carreira e a minha autonomia consolidadas. Ao me ver inserida na dinâmica familiar de terceiros, lidando com a perda temporária da privacidade e distanciada da minha área de formação e estudo, precisei encarar um profundo questionamento interno. Estar longe do meu campo profissional e da estabilidade que eu conhecia exigia uma reconfiguração diária de quem eu era e do que estava construindo ali. Ainda assim, insisto em afirmar: não me arrependo de absolutamente nada. Essa vivência me transformou de formas inimagináveis, e guardo uma imensa gratidão àquela família pelo acolhimento em um momento tão decisivo da minha vida.

Atendo muitas pessoas que vivem exatamente esse peso sufocante da rotina ou a angústia de trabalhar e morar sob o mesmo teto — uma realidade complexa que o home office e as demandas do mundo moderno intensificaram e popularizaram. Aquela jovem de 2010 estava aprendendo, na marra e no silêncio do interior da Irlanda, que acolher a própria tristeza e estabelecer limites internos são passos fundamentais para não se deixar apagar pelo ambiente.

Olhando para trás hoje, com a bagagem e a escuta clínica que desenvolvi ao longo dos anos como psicóloga, percebo o quanto aquele período em Portarlington foi, na verdade, uma grande escola de saúde mental. A experiência foi ainda mais profunda porque uma das crianças daquela família era autista. Aquele foi o meu primeiríssimo contato direto com o autismo — um prenúncio silencioso do caminho que eu trilharia anos mais tarde, e que hoje se consolida na minha especialização em Neuropsicologia.

Compreendi, na prática, o que o escritor John Updike tão bem sintetizou: “Qualquer atividade torna-se criativa e prazerosa quando quem a pratica se interessa por fazê-la bem feita, ou até melhor.”

Eu buscava aplicar essa filosofia no meu dia a dia com as crianças, transformando a dedicação diária em aprendizado e evolução profissional.

É essa jornada de quedas, congelamentos e superações que estou resgatando e estruturando no e-book que estou escrevendo. Um livro digital feito para mostrar que, por trás de cada grande mudança geográfica, existe uma imensa, invisível e necessária transformação interna.

"Constrói tu mesmo tua vida. Não permitas que opiniões e erros alheios te conduzam ao fracasso."
Autor: ( Hélio Cavenaghi )

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