Revisitando meu Diário: O dia em que virei Au Pair na Irlanda
Quando abro os meus arquivos de 2010 e releio o início do meu diário de Au Pair, sinto uma onda de afeto por aquela Luciana de trinta anos.
Para o e-book (que já está em construção!), optei por trazer uma versão mais fluida e essencial dos meus sentimentos daquela época. Por isso, faço questão de ressaltar que os relatos originais, com todos os seus detalhes minuciosos — as birras diárias das crianças, os meus erros engraçados de inglês (como confundir smart com smiles) e o dia a dia sem filtros —, continuam preservados exatamente como foram escritos aqui no meu blog desde 2010.
Se você tiver curiosidade de acompanhar os bastidores nus e crus daquela rotina — e ver como começou a minha história com a minha doce Brónagh, que hoje já é uma mulher de 22 anos —, o blog continua ativo como o nosso verdadeiro ponto de encontro com o passado. No livro, prefiro te guiar pela essência da transformação que essa experiência me trouxe.
Lembro que, logo nos primeiros dias na nova função, decidi documentar a rotina para manter as pessoas que acompanhavam o meu blog informadas sobre uma das profissões mais procuradas pelas intercambistas na Irlanda.
Eu escrevi na época que não sabia quanto tempo aquela jornada duraria, mas tinha a certeza, no fundo da alma, de que seria o suficiente para marcar a minha vida eternamente. E estava certa.
Para quem não conhece o termo, Au Pair é uma expressão francesa que, ao pé da letra, significa "ao par" ou "entre iguais". Na dinâmica do intercâmbio, isso significava que a estudante moraria com uma família nativa em igualdade de condições para aprender o idioma e vivenciar uma imersão cultural legítima. Em troca de ajudar no cuidado com as crianças e em tarefas domésticas leves, a família oferecia moradia, alimentação e uma ajuda de custo semanal. No bom e velho popular: babá! Mas com uma diferença fundamental: não era uma relação puramente trabalhista tradicional. A proposta era fazer parte do núcleo familiar, atuando como uma espécie de big sister (irmã mais velha).
A teoria era linda, mas a realidade do desembarque foi outra história. No instante em que entrei na casa daquela família, a sensação foi a de ser introduzida subitamente em um episódio real do seriado LOST.
Uma enxurrada de dúvidas e inseguranças começou a bombardear a minha mente:
O que eu faço para fazer essas crianças felizes?
Será que eles vão gostar de mim?
Onde eu guardo as minhas roupas?
Onde ficam os talheres dessa cozinha?
Será que nós vamos jantar juntos?
Como vou conseguir me comunicar direito com eles?
Do que essas crianças gostam de brincar?
Nos primeiros dias, batia um baita constrangimento até para abrir a geladeira ou mexer nos armários. Eu me sentia em um eterno estado de: "Hi, I’m lost! Can you help me?" (Oi, estou perdida! Pode me ajudar?). Chegar não era fácil, mas era o primeiro passo para encarar o desafio. Se daria certo ou não, dependeria de uma mistura delicada de dedicação, adaptação e, claro, um pouquinho de sorte. Era pagar para ver.
Felizmente, as crianças se tornaram as minhas grandes companheiras em Portarlington. Com elas, acumulei diariamente momentos de boas risadas, de aprendizado prático, de birras, choros, reconciliações e muitos abraços. Ver o meu nome sendo pronunciado por eles com tanto carinho e reconhecimento era algo que simplesmente não tinha preço. Deixar um pouco de mim e levar um tanto deles era a nossa regra invisível.
O frio, por sinal, foi um personagem à parte naquela rotina no interior. Meus amigos que já estavam na ilha no ano anterior tinham me avisado que o inverno deles havia chegado a atingir impressionantes -8ºC, o que confesso que me assustava bastante. Naqueles dias, Portarlington amanhecia completamente congelada, com os termômetros marcando -1ºC. Para uma carioca legítima, sentir esse frio cortante na pele não era uma tarefa fácil; havia dias em que o vento soprava tão forte que a vontade de colocar os pés para fora de casa era simplesmente zero. Mas a gente se agasalhava, abria um sorriso e ia.
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