O Dia em que Deixei o Trem Escolher Meu Destino - Galway

No início de 2011, eu trazia guardada comigo uma lista de desafios pessoais. Um deles, talvez o mais íntimo e desejado, era o de vivenciar uma viagem completamente sozinha e sem nenhum planejamento. Eu queria testar a minha própria bússola, sentir a vibração da liberdade pura. Em um final de semana qualquer, decidi que era a hora. Arrumei uma bolsa pequena, fechei a porta de casa e parti em direção à estação de trem.

O plano inicial era Dublin, mas o asfalto dali já tinha me cansado o olhar. Ao pisar na estação, olhei para o painel de horários e decidi rasgar o itinerário. Um trem para Galway partiria em exatos vinte minutos. Comprei o bilhete de estudante — vinte e três euros que, mal sabia eu, pagavam um passaporte para o imprevisto.

Foram duas horas de trilhos, fones de ouvido e pensamentos soltos que se perdiam na paisagem verdejante através da janela. Quando desembarquei em Galway, o vento frio da costa oeste me deu as boas-vindas. Eu não tinha reservas em hotéis, não carregava mapas e não fazia a menor ideia se deveria dobrar à direita ou à esquerda. Havia apenas eu e a minha intuição.

Caminhando pelas ruas vibrantes e pela praça central, avistei um posto de informações turísticas. Naquele instante de leve desespero, percebi uma grande magia do intercâmbio: quando você precisa se virar sozinha, o inglês flui com uma clareza maravilhosa. Munida de indicações de hostels próximos, segui em frente. Na primeira escadaria que subi, o som familiar da nossa língua ecoou. Cruzar com brasileiros na Irlanda é quase um ritual de síncronia; imediatamente me senti em casa. Em poucos minutos, eu já conversava com dois compatriotas, quatro espanhóis e um rapaz da Arábia Saudita. Unidos pela mesma energia desbravadora, fomos juntos conhecer o Kinlay House. 

A empatia entre o grupo foi imediata. Passamos o fim de tarde conversando na sala comum, saímos para um lanche rápido e, quando a noite caiu, fomos desbravar a vida noturna no The Quay — que se tornou, sem dúvidas, o melhor pub que conheci em solo irlandês. 
Entre conversas em vários idiomas, brindei àquela audácia tomando uma Bulmers de morango, uma sidra docinha e deliciosa que custava cerca de cinco euros nas baladas. 

O Despertar da Terra Antiga

Acordei às oito da manhã com aquela preguiça típica que o frio traz, mas a curiosidade foi maior. Despedi-me dos amigos temporários que a estrada me deu e caminhei até a Coach Station para escolher um dos muitos tours que desbravam a região. Optei pela Healy Tours por quinze euros. Às dez da manhã, o ônibus partiu em direção ao coração do misticismo irlandês.

Nossa primeira parada foi na Aillwee Caves, cujo nome deriva do gaélico Aill Bhuí, que significa "penhasco amarelo". Entrar ali é caminhar por um quilômetro e meio em direção ao ventre da montanha. A história de sua descoberta é fascinante por sua simplicidade: em 1944, um agricultor chamado Jacko McGann entrou na caverna enquanto seguia seu cão, que perseguia um coelho. Ele guardou o segredo para si por anos, e o local só foi completamente explorado em 1973. Caminhar por aquelas galerias subterrâneas, ouvindo o som de uma cachoeira oculta e observando as estalactites e estalagmites que levaram eras para se formar, foi como tocar o tempo. Ali dentro repousavam, inclusive, ossos de espécies já extintas da fauna local.

Confesso que, em alguns momentos, fazer um tour inteiramente sozinha traz um nó na garganta. Diante de paisagens de tirar o fôlego, eu sentia falta de partilhar o espanto. Pedia para estranhos tirarem fotos minhas, mas o enquadramento nunca saía como eu imaginava. No entanto, logo compreendi uma verdade profunda: nenhuma lente ou máquina fotográfica no mundo é capaz de registrar com exatidão o que os olhos e a alma contemplam em Galway.

O caminho avançava por estradas contornadas por ruínas medievais, igrejas centenárias, castelos de pedra e infinitas ovelhas salpicando os vales. Até os cemitérios antigos incrustados nas montanhas chamavam a atenção, carregando túmulos históricos que pareciam saídos de um filme de época.

A van parou diante do impressionante Poulnabrone Dolmen, um monumento megalítico que data de 4200 a.C. Ele funciona como um dos grandes cartões-postais da região, uma estrutura de dólmen maciça cujo teto de pedra pesa cerca de cinco toneladas, equilibrado perfeitamente sobre rochas verticais. Toda aquela engenharia ancestral cobre uma câmara funerária de nove metros de profundidade voltada para o leste. Escavações feitas em 1985 revelaram que o local guardava os restos mortais de mais de vinte pessoas da Idade do Bronze, junto a machados de pedra, cerâmicas e pingentes de osso. Sentir o vento cortar aquele platô rochoso e sagrado me fez silenciar por dentro.

E, finalmente, o horizonte se abriu para os Cliffs of Moher. São oito quilômetros de penhascos colossais que se erguem a mais de cem metros de altura, despencando direto no Oceano Atlântico. O magnetismo daquele lugar é tão cinematográfico que serviu de cenário para o filme Casa Comigo. 

A fome bateu forte no fim da tarde, e o refúgio foi o aconchegante Fitzpatrick Pub, onde uma sopa quente de quatro euros restabeleceu minhas energias para a viagem de volta.

Enquanto as rodas de ferro me conduziam de volta, percebi que aquela jornada sem rumo havia cumprido o seu papel místico. Eu não havia apenas conhecido Galway; eu havia testado a minha própria capacidade de caminhar no escuro e confiar no fluxo da vida.

Aprendi, no silêncio daquelas estradas celtas, o que a autora Beverly Sills sintetizou com precisão: "Você pode se sentir desiludida se fracassar. Mas será muito tola se, pelo menos, não tentar."










Comentários

  1. Fotos lindas! Adoro mto Galway!! espero q vc tenha gostado! ;*

    Serena;*

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  2. Olá Serena!!

    Adorei as suas fotos da França... mt criativas!!

    Estive em Paris no reveillón... e ao rever as suas fotos... bateu uma saudadinha, rs.

    Fui em Galway no último fds e por isso achei o seu blog, pq eu estava fazendo uma pesquisa sobre a cidade e o Google me indicou o seu blog. Poxa... fui sozinha... mas foi bem legal!!

    Eu moro em Portarlington, no interior tb, fica há 2 horas de trem... pretendo voltar lá... aí marcaremos algo.

    Um super beijo e boa sorte!!

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