Um Mergulho No Escuro - Imigração Portuguesa
(Atenção: Contém um pequeno spoiler de um dos capítulos do meu livro Vida Sobre Vidas! Lembrando que a obra já está disponível na Amazon e é gratuita para assinantes do Kindle Unlimited / KDP Select!)
Está Chegando a Hora
(Carmen Costa)
Ai, ai, ai ai, ai ai ai
Está chegando a hora
O dia já vem raiando, meu bem
Eu tenho que ir embora...
Houve um tempo em que pensei em escrever uma obra isolada sobre minha família, um projeto que chamaria de Um Mergulho no Escuro. Imaginei que a história dos meus antepassados — com suas águas densas de amor, dor, partidas e saudades — pudesse ocupar um espaço próprio, separado de mi.
Contudo, ao escrever estas páginas, compreendi que não há separação. A história deles é o alicerce da minha; o escuro que eles atravessaram é a sombra que eu hoje ilumino. Por isso, decidi trazer esse "Mergulho" para dentro de Vida Sobre Vidas. Este livro deixa de ser um relato para se tornar uma integração: a minha vida contada através das vidas que me deram passagem.
Desde pequenina, sempre tive uma ligação muito forte com a minha avó, Celeste. Minha canção de ninar era essa melodia de Carmen Costa, que ela cantava desde a minha primeira infância. O som sempre me levava às lágrimas, como se minha alma reconhecesse uma saudade milenar. Ainda bebê, eu sentia ali o amor, as despedidas e o prenúncio dos ciclos — um murmúrio de destino que tocava a minha alma. Em um livro que narra a minha "vida sobre vidas", é essencial honrar as raízes que me moldaram.
Não sabemos ao certo há quantos milênios a humanidade caminha, e, embora haja inúmeras teorias e mistérios, o que realmente importa é que todos nós carregamos as origens de nossos ancestrais. As memórias deles — na forma física, nas crenças e nas atitudes — estão em nosso DNA, e nem sempre temos consciência desse legado. A busca por essa herança ancestral levou-me a ter mais conhecimento de mim mesma, revelando fascinantes descobertas. Um antigo provérbio diz que toda jornada começa com um primeiro passo. Na genealogia, acredito que esse primeiro passo começa sempre em nós mesmos.
Esse capítulo deveria ter sido escrito pelo meu pai. Infelizmente, a emoção o impediu de colocar essa história no papel, embora ele seja ótimo com as palavras. Por isso, a missão recaiu sobre mim.
Dificilmente conhecemos a história dos nossos antepassados na íntegra; com sorte, desvendamos no máximo três ou quatro gerações. Há tanta história oculta neste planeta que é humanamente impossível desvendar muita coisa, especialmente nas épocas em que não existia a tecnologia que possuímos hoje. No entanto, determinados filmes, séries ou livros conseguem nos fazer mergulhar em histórias ricas em detalhes. Então, vem comigo, que eu vou te contar a história da minha vida e sobre outras vidas!
O romance dos meus avós começou à moda antiga em Portugal, durante a década de 40. Numa sociedade profundamente influenciada pelo catolicismo, o namoro era pautado por uma inocência extrema: certa vez, ele apenas lhe segurou a mão, e ela, na pureza da época, sentiu que já havia perdido a castidade. Minha avó se casou aos 19 anos, e meu avô, aos 20, servindo no quartel que ficava convenientemente próximo da casa dela. A ignorância sobre a vida conjugal atingiu o ápice na noite de núpcias: minha avó, completamente alheia ao que a esperava, vestiu a camisola e simplesmente se deitou para dormir (o que, é claro, não aconteceu).
Em 1953, meu avô paterno, José — casado, pai de dois filhos, aos 35 anos — partiu rumo ao Brasil, até então desconhecido para ele. Ele parecia estar fugindo da crise econômica e social pela qual muitos países europeus estavam passando. José só conhecia o Brasil de ouvir falar; ainda não havia telefone, internet, blogs ou YouTube para saber maiores detalhes. Foi literalmente um "Mergulho no Escuro", sem saber ao certo o que iria encontrar pelo caminho. A única certeza que tinha em seu coração era a necessidade de tentar uma nova vida.
Ele não estava totalmente sozinho nessa empreitada. Seu cunhado já havia abandonado a própria família e partido rumo a essa aventura um pouco antes. Certamente ele enviou notícias entusiasmadas sobre suas "descobertas fantásticas" no Brasil, o que encorajou a partida de meu avô. José, que trabalhava como encerador — é o que diz a certidão de nascimento de meu pai —, parecia também ter sido marceneiro. Uma sociedade de trabalho que não prosperou parece ter sido a motivação final para tentar a vida em outro país.
Infelizmente, pouco sei sobre sua infância ou seus antepassados. A ausência de meus avôs foi uma realidade em minha vida. Essa ausência na linhagem masculina, era uma ferida inconsciente, hoje é uma dor curada que pude finalmente transcender.
A experiência migratória é, sem dúvidas, um divisor de águas que marca para sempre. A emigração resultou em uma mistura de povos, culturas e experiências, e na minha família não foi diferente: sou filha e neta de imigrantes portugueses. E a minha jornada começou com a dele.
Por muito tempo, julguei duramente a escolha de meu avô. Eles tinham uma ótima vida em Portugal, mas acabaram por abandonar tudo o que possuíam. A lenda familial conta que o meu bisavô, que faleceu em 1977, perdeu todos os bens da família, ainda em vida, devido a vícios e a outras mulheres. Contudo, essa é uma informação que nunca saberemos ao certo.
Para mim, tudo está ligado a uma causalidade maior, e essa crença permite a aceitação. Essa não é uma história de sucesso material, mas sim uma jornada de grandes perdas e desafios. É exatamente por isso que ela precisa ser contada. Meu intuito é apenas relatar como uma escolha é capaz de mudar os destinos por várias gerações.
Porém, sou muito grata, pois, se não fosse por essa partida, hoje eu não estaria aqui contando essa história. Essa emigração para o Brasil deixou uma grande ferida emocional em minha família, principalmente na vida da minha saudosa avó, Celeste.
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