Raízes Além-Mar: A História de Onde Vim
(Atenção: Contém um pequeno spoiler de mais um trecho do meu livro Vida Sobre Vidas! Relembrando que a obra está disponível na Amazon e é gratuita para assinantes do Kindle Unlimited / KDP Select!)
Minha avó Celeste, aos 35 anos, viu-se diante de um destino que não escolheu, mas que se sentiu na obrigação de abraçar. Naquela época, uma mulher que não seguisse o marido era severamente malvista pela sociedade; o estigma do abandono pesava tanto quanto a saudade. Na década de 1950, as restrições eram tantas que uma mulher só podia viajar para fora do país se tivesse uma autorização por escrito do próprio marido. Um contraste profundo com os tempos de hoje, em que eu, com passaporte português ou não, já cruzei fronteiras e desbravei 18 países com total autonomia.
Ela partiu um ano depois do marido, cruzando o oceano com seus dois filhos: minha tia e madrinha Lourdes, de sete anos, e meu pai, Joaquim, com apenas quatro. Mas Celeste não trazia apenas as crianças; carregava a ferida aberta de ter perdido duas filhas antes da viagem, ambas antes de completarem um ano de vida. Minha avó carregou essa dor por muitos anos, narrando a história repetidas vezes, sempre com uma riqueza de detalhes que mantinha o luto vivo. No Brasil, a vida tentou florescer novamente e eles tiveram mais dois filhos, mas a marca do sacrifício e da travessia já havia se tornado o alicerce de nossa história.
A Cena da Despedida
Segundo os relatos, a despedida de seus familiares foi sofrida e dilacerante. Sua mãe, Maria (minha bisavó), agarrava-os com força, tentando em vão impedir essa dolorosa partida, que seria para sempre. Eles jamais retornaram a Portugal, com a única exceção de meu pai, que esteve lá em 2002. A dor e o trauma deste dia jamais se apagaram das lembranças de minha avó Celeste, acompanhando-a e marcando-a até seus últimos dias de vida.
A Travessia e a Chegada
A viagem pelo Oceano Atlântico durou doze dias exaustivos de navio. A dor da saudade apertava seu peito; ela havia deixado tudo e todos para trás, justamente em uma época em que os meios de comunicação eram escassos. Celeste passou muito mal durante a travessia devido aos intensos enjoos, tornando os dias ainda mais longos.
Após a cansativa jornada, enfim atracaram no Rio de Janeiro, em 1954 — coincidentemente o ano em que minha mãe nasceu. Foram logo acolhidos pelo meu avô José, que já estava instalado na cidade, prontos para dar os primeiros passos na construção dessa nossa nova vida.
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