A Menina que Ouvia o Além-Mar
As histórias da vovó foram os alicerces do meu desejo de mundo. Por trinta anos, ouvi-a descrever, com minúcias sagradas, a cultura que ela deixou para trás: os familiares que eram lendas para mim, a vibração das danças, a força das crenças e a dignidade do que meu bisavô construiu em solo português. Aquelas repetições que eu tanto amava agiam como sementes. Enquanto o mundo via Portugal em revistas, livros de história ou documentários de TV, eu via a terra dos meus ancestrais através dos olhos dela. Foi ali, entre uma história e outra, que o meu desbravar começou; o meu coração já cruzava o oceano muito antes de eu pisar no aeroporto.
Foi na virada do milênio, com o acesso à internet, que percebi que o sonho de conhecer minhas raízes era mais tangível do que eu poderia imaginar. Assim, em 2008, realizei minha primeira peregrinação e o encontro real com as minhas raízes.
Aquela foi minha primeira viagem internacional: pisei em solo português para viver e trabalhar no Monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo. Ali, entre o santuário e o mar, senti o êxtase de ver de perto os cenários que minha avó narrava. Eu me sentia, literalmente, dentro de um filme.
Minha história com este país, no entanto, é feita de camadas que exigiram mais do que deslumbramento. Em 2017, retornei para morar no arquipélago dos Açores, realizando o sonho de cursar um período na Universidade dos Açores. Foi uma experiência fascinante, mas profundamente desafiadora. Viver no meio do oceano, cercada por vulcões e pelo isolamento das ilhas, exigiu de mim uma força que eu ainda não sabia que possuía. Foi um tempo de maturação, onde o romantismo das histórias da vovó encontrou a dureza e a beleza da realidade acadêmica e geográfica.
Cada retorno, incluindo minha última vivência em 2025, é profundamente emocionante. Sinto a presença dos meus antepassados de uma forma inexplicável, o que faz um bem enorme para a alma. Compreendi que a verdadeira felicidade está justamente no lugar que abandonamos e para onde ansiamos regressar sempre.
Eu sou o resultado de milhares de histórias que vieram antes!
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