Explorando Connemara: O roteiro mais inesquecível de Galway - Irlanda

Quando a grana ficava curta ou as passagens aéreas para o resto da Europa disparavam nos feriadões, a própria ilha se encarregava de me lembrar que eu ainda tinha um universo inteiro para desvendar logo ali ao lado. 
Naquela Páscoa de 2011, diante dos preços abusivos dos voos, decidi arrumar as malas e retornar a Galway. Eu não perdia uma única oportunidade de colocar o pé na estrada, e voltar ao Oeste irlandês parecia o plano perfeito para nos aprofundarmos na alma do país.

Nossa primeira lição cultural daquele final de semana aconteceu logo na sexta-feira santa. Fomos ao supermercado com a intenção de comprar algumas bebidas e petiscos para abastecer a viagem, mas demos de cara com um aviso bem direto: proibida a venda de álcool hoje. Descobrimos, na marra, o quanto as tradições religiosas ainda ditavam o ritmo do comércio local.

Mas Galway tem esse poder: o condado entra na sua pele de um jeito que nenhum outro lugar na Irlanda consegue. É um território notável, dramático, assombroso e extremamente selvagem. Seus campos rochosos e pântanos às vezes parecem implacáveis e cinzentos; em outras, explodem em cores vibrantes e surgem ponteados por lagos pitorescos e tranquilos. Deixamos o centro de Galway rumo ao coração de Connemara, uma das regiões mais tradicionais e preservadas da ilha. 
Ali, o tempo parece correr em outra velocidade. Entramos na chamada zona Gaeltacht, onde a língua nativa, o gaélico, ainda é falada no dia a dia. Para nós, aquele idioma soava completamente incompreensível, e até as placas de trânsito deixavam de ter tradução, exibindo apenas as palavras celtas originais.

Fizemos um circuito circular contornando o Atlântico, apreciando as praias exóticas formadas quase inteiramente por pedras, com pouquíssima areia. Connemara é uma obra de arte natural salpicada de pântanos e montanhas altaneiras, abrigando belas aldeias, pubs fabulosos e algumas das pessoas mais simpáticas e acolhedoras de toda a Irlanda. Não é à toa que suas paisagens serviram de cenário para o filme Leap Year (Ano Bissexto), promovendo a beleza cinematográfica da região internacionalmente.

O ponto alto e mais aguardado do passeio era a famosa Kylemore Abbey. Originalmente, o local era um castelo neogótico da era vitoriana, construído no século XIX pelo político e magnata inglês Mitchell Henry como uma gigantesca prova de amor para sua esposa, Margaret. O destino, porém, foi cruel: ela faleceu apenas quatro anos após o término da construção. Desiludido e quebrado pelo luto, Henry mandou erguer ali perto uma réplica da Catedral de Bristol — a igreja favorita de Margaret — em sua homenagem, e passou a propriedade adiante. Anos mais tarde, o castelo virou presente de casamento para a filha de um nobre, mas o genro, viciado em jogo, acabou perdendo aquele palácio em uma mesa de carteado.

A reviravolta final da propriedade aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial. Uma congregação de freiras beneditinas irlandesas que vivia na Bélgica teve seu convento destruído por bombardeios e decidiu retornar à pátria em 1920. Kylemore estava à venda, e elas conseguiram adquirir o local. Como o convento permanece ativo até hoje, confesso que na época senti uma pontinha de decepção ao visitar o interior. Esperando a imponência dos salões reais, só pudemos acessar uma sala de estar, a de jantar e uma exposição de vestes clericais.

O verdadeiro espetáculo de Kylemore está do lado de fora. A vista do castelo refletido no lago é de tirar o fôlego. Para completar, pegamos um micro-ônibus até os maravilhosos jardins vitorianos da propriedade. Caminhar por entre aquelas cerca de 10.000 árvores foi como entrar em um verdadeiro conto de fadas.

Galway ainda nos reservava outras preciosidades históricas profundas, como a Catedral de St. Brendan, em Clonfert. Erguida no local de um antigo mosteiro que remontava ao século VI, a catedral é mundialmente famosa pelo seu magnífico portal em estilo românico que data do ano 1200. Olhar para aquela estrutura esculpida tantos séculos atrás me fez pensar sobre a resiliência do tempo.

Olhando para trás hoje, com a visão de 2026, entendo que Connemara foi o lugar onde a Irlanda se despiu das aparências para me mostrar a sua essência mais pura. Entre a beleza melancólica das pedras e as histórias de castelos perdidos por amor e por jogo, eu estava aprendendo a ler o silêncio daquela ilha.

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Eu, Flávia e Priscila nos divertindo em casa mesmo.














 

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