Aventuras Compartilhadas: A Garra de uma Amiga no Interior da Irlanda

Celebrar a vida é somar amigos, experiências e conquistas, dando a cada uma delas um significado profundo. Por isso, ao resgatar as memórias daquele período, é impossível não abrir um espaço muito especial para homenagear uma amiga querida que o destino — ou uma feliz coincidência — colocou no meu caminho ainda no Brasil: a Gabriella.

Descobrimos, antes de viajar, que morávamos incrivelmente perto no Rio de Janeiro. Com apenas 20 anos, ela resolveu embarcar na mesma aventura rumo à Irlanda. Naquela época, completávamos dois meses de Europa. O tempo parecia voar, trazendo um aprendizado constante, milhões de descobertas e novas experiências a cada esquina.

O Começo de Tudo: Dos Cliques Virtuais à Realidade

Nossa conexão começou nos bastidores do planejamento, quando as redes sociais da época — como os fóruns de intercâmbio e as primeiras mensagens virtuais — serviam de ponto de encontro para os futuros viajantes. Foi ali que nos conhecemos e começamos a ampliar nossa rede de apoio. A Gaby acabou se tornando uma verdadeira bênção na minha jornada, e minha admiração pela garra dela só crescia.

O plano original da Gaby era viajar apenas em 2011. No entanto, uma amiga que já estava na Irlanda há quatro meses conseguiu para ela uma vaga de Au Pair no interior do país. O que ela fez? Em uma decisão corajosa, no meio do semestre, em pleno mês de setembro, ela trancou a faculdade de Publicidade, pausou as aulas de direção, preparou as malas e embarcou, contando com o apoio incondicional da família e do namorado, Fábio, com quem viveria um desafiador relacionamento à distância.

Comprada de última hora, a passagem aérea custou caro. Para economizar, ela decidiu viajar sem um curso de inglês fechado — já que comprar a escola diretamente na Irlanda era bem mais barato — e desembarcou com o visto inicial de turista. No aeroporto, o oficial de imigração concedeu a ela uma permanência de apenas 40 dias. Isso significava que, se ela não conseguisse reverter aquela situação para um visto de estudante dentro do prazo, teria que regressar ao Brasil ou enfrentar a ilegalidade.

Por um lado, a escolha foi estratégica: ela já chegou com emprego, hospedagem e alimentação garantidos pela família anfitriã, o que poupou a Gaby do desgaste de buscar uma vaga em repúblicas lotadas em Dublin. Em contrapartida, o cenário era um teste de resiliência. Enquanto eu ainda estava no Brasil, ela me contava nas mensagens que estava morando em uma linda mansão, mas isolada "no meio do mato", onde as vizinhas mais próximas eram ovelhas, alpacas e algumas casas distantes. O nome desse lugar isolado e bonito era Tullamore, a cerca de uma hora de trem de Dublin.

O Isolamento e os Preços do Interior

Assim que cheguei à Irlanda — duas semanas depois dela —, fui visitá-la em Tullamore. Pude constatar o quanto a rotina ali era complexa. Distante do centro da cidade, ela dependia dos patrões para absolutamente tudo, inclusive para ir à estação ferroviária. Naquela área não passava transporte público e um táxi até o centro custava em torno de 25 euros. Foi nesse período que vivemos o emblemático e desagradável episódio da expulsão do SPA, que havia sido um presente da patroa dela.

Para afogar as mágoas, lembro que fomos a um pub no centro de Tullamore e inventamos de pedir uma caipirinha. O barman, confuso, perguntou: "What?". Explicamos que era uma bebida brasileira com vodca, açúcar, gelo e limão. Ele tentou reproduzir, mas misturou tudo e, para completar, adicionou água com gás. O resultado ficou péssimo, e ainda tivemos que desembolsar 5 euros pela experiência. Lembro da Gaby brincando que, ao voltar para o Brasil, jamais reclamaria do preço de uma boa caipirinha autêntica.

Viver no interior também cobrava o seu preço em imprevistos. Pouco antes de viajar, a Gaby tinha colocado aparelho ortodôntico no Brasil. Logo nas primeiras semanas na Irlanda, alguns dos brackets se soltaram, causando um enorme desconforto. Ao procurar um dentista local para remover o tratamento, a conta ficou em impressionantes 200 euros — uma verdadeira facada. Ficou o aprendizado prático: serviços de saúde e estética na ilha são caríssimos, e encarar um intercâmbio de aparelho exige cuidados redobrados.
A Vitória nos Minutos Finais

A trajetória da Gaby foi marcada por superar obstáculos desde o primeiro minuto. Na imigração do aeroporto, os oficiais ligaram para a casa da família e a dona, por um mal-entendido, disse que não a conhecia. Por muito pouco ela não foi deportada ali mesmo, mas manteve a calma e conseguiu entrar. No isolamento do campo, o celular e a internet eram suas únicas conexões com o mundo. Teve uma semana em que o aparelho dela quebrou, e a solidão quase a fez pirar.

Mesmo isolada, ela precisou se deslocar diversas vezes a Dublin para resolver burocracias pesadas: emitir o PPS (o documento de identificação fiscal), abrir conta bancária e comprovar o depósito exigido pelo governo. Nesse meio tempo, equilibrando o estresse com um pouco de leveza, ela ainda encontrava fôlego para se perder nas araras da Penneys, fazendo suas comprinhas.

Muitas vezes ela me ligava chorando, tomada pelo medo de o tempo esgotar e o visto não sair. Mas em momento algum a Gaby cogitou desistir. A autoconfiança e a maturidade que ela demonstrou provaram que ela sabia exatamente onde queria chegar.

A grande vitória veio nos acréscimos do segundo tempo. No dia 26 de outubro de 2010, exata data de vencimento do seu prazo de turista, a patroa da Gaby a acompanhou até a imigração na cidade vizinha de Portlaoise. Lá, contra todas as expectativas e burocracias, ela conseguiu converter seu status para o visto de estudante de forma limpa, garantindo a tão sonhada carteirinha de residente.

Vale o alerta, contudo: a experiência da Gaby foi uma exceção de muita sorte. Em muitos casos, as autoridades exigem que o cidadão saia do país para aplicar para o visto de estudante, correndo o risco de ter a reentrada negada. Não é um caminho recomendado para se fazer às cegas.

Com a situação regularizada, ela pôde respirar aliviada. Conseguiu alterar sua passagem de volta para junho de 2011 e fechar um novo emprego de Au Pair, desta vez no coração de Dublin, onde finalmente começaria suas aulas na escola de inglês. Por uma ironia bonita do destino, enquanto ela arrumava as malas para a vibrante capital, eu me mudava para o interior, assumindo o meu posto em Portarlington. Nos desencontramos geograficamente, mas o laço estava selado.

A Gaby agora seguia cheia de planos, contando os dias para a chegada do namorado, que cruzaria o Atlântico para passar as férias com ela. O próximo passo da nossa jornada já estava desenhado: um mochilão juntos rumo a Paris e Amsterdã, prontos para registrar cada reencontro e cada novo horizonte.

O tempo passou e aquela amizade que nasceu nos bastidores do intercâmbio só se fortaleceu. Tanto que, já de volta ao Brasil, nossa parceria de viagem virou convivência diária: decidimos dividir um apartamento no Rio de Janeiro e fomos companheiras de teto por uns dois anos.
Atualmente, a Gaby mora em Lisboa. Estive lá para visitá-la em 2025 e, sempre que ela vem ao Brasil, o nosso encontro é sagrado — seja para um bom almoço ou para um café regado a gargalhadas e muitas lembranças daquela época. 
Afinal, quem compartilha os desafios e as vitórias de um começo de vida no exterior costuma criar laços para a vida inteira. (Ou não, né? Depende muito de cada história, mas no nosso caso, deu super certo!).




Eu e Gaby

"Quando você planeja o seu intercâmbio, você sai do seu país de origem com um propósito, um foco a ser atingido, então, não perca-o no meio do caminho."

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Comentários

  1. "e deu super certo, conheci varias pessoas, inclusive a Gaby, que tem sido uma grande bencao em minha vida, a minha admiracao e carinho por ela, crescem a cada dia"

    ...pois é Lú. Parece que esse é um resultado invariavel a qualquer pessoa que venha fazer parte da vida dela. Ser conquistado e criar uma grande admiração não é uma escolha...mas um fato! Fato esse que vem se confirmando cada vez mais no dia a dia da vida dela por aí.

    A opinião comum diz que eu deveria ser o primeiro a ir contra a ideia de ela partir em busca de um intercambio. Mas minha opinião pessoal sempre deu valor as ideias que viriam a fazer bem a ela.

    Viver em um novo país é um experiencia transformadora mas, por vezes, desafiadora demais. Se for colocar no papel, cada semana que voces ganham por aí pode vir a se tornar um post de blog que vai servir de referencia para um bando de gente que está aqui pelo Brazil ainda na fase de sonho e planejamento.

    Continuem em frente. Tenho certeza que manterão a garra para continuar ganhando os dias por aí. Contem comigo no que for preciso.

    Ah...e o mais importante. Não deixe de lembrar a minha guti guti fofinha ao menos 5x ao dia o quanto eu a amo.

    Hey...ho...let's go....and keep the faith!!!

    :)

    ;)

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  2. Lu, vc falou tudo, a Gaby eh amiga, guerreira e muito corajosa mesmo,alem de super madura. tem tudo pra dar certo. eu adoro esse casal guti guti e tomara q o fim do ano chegue logo pro fabio ir pra la, curtir muito e dar mais um gas pra Gabyzinha!
    Gaby, volta logooooooooooo!!

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  3. Conheco Gaby a pouco tempo né..uns 2 ou 3 anos mas é impressionante como essa menina é tao admiravel em por um curto tempo. Sempre batalhadora, focada e muito decidida em suas acoes mesmo com 20 aninhos.

    Desejo a ela toda sucesso nesta terra porque aqui ela tem um monte de amigos esperando que ela volte com a mesma essencia maravilhosa de antes, mas uma mulher definitivamente pronta para a vida.

    Bj grande Gaby!!!

    Luciano Bastos

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  4. Bem... Respondendo a pergunta da lu.
    Valeu a pena?
    Sair do seu pais e deixar amigos, familia, facul, e namorado foi muuito dificil.
    Mas tinha e continuo mantendo um objetivo que eh aprender ingles, e claro a experiencia de morar fora, de conhecer uma nova cultura, conhecer novas pessoas e etc etc.
    Nao esperava que nada fosse acontecer facilmente, mas tbm nao esperava passar por todas as dificuldade que passei. Tudo foi muito mais dificil do que esperava.
    Quando cheguei me deparei com uma mansao no meio do nada, com tres criancas mega atentadas e foi muito complicado a adaptacao com elas. rs Elas aprontaram e muito no inicio. rs
    Nossa a troca do visto foi muuito tensa mas "no final do segundo tempo" eu consegui.

    Mesmo que lentamente tudo esta caminhando muito bem.
    Hoje consegui um novo emprego e finalmente me mudo pra civilizacao. rs
    Vou comecar meu curso( uns dos meus principais objetivos aqui).

    Apenas 2 meses, mas dois meses de muitas historias. Acho que aprendi muita coisa com tudo isso que eu passei e acho que tudo isso esta sendo valido.
    Continuo contando com o apoio de amigos, familia e claro do guti guti(esse me da varios conselhos,atura minhas mudancas de humor rs e posso falar com total certeza que eh quem mais me da apoio pra estar aqui *love u).
    Quanto aos comentarios acima, so tenho a agradecer e falar que estou com muita saudade desse sodomita e da queridissima isa. Quando voltar quero poder estar mais com voces.
    E nao poderia esquecer de agradecer a lu pelo post e falar que foi muito bom ter te conhecido e que com certeza a sua amizade vai alem dessa ilha. Sei que posso contar com vc e tenho a certeza que vc sabe que isso eh reciproco.
    Em suma muuitas coisas ainda estao por vir,temos meses pela frente e muuitas coisas boas esperando pela gente ( assim espero) rs.
    Gabi

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  5. Linda história. Estou indo dia 20 de fev. para Dublin. Se a minha história for um pouquinho só do que foi com a Gaby, já estou feliz :D

    Mateus

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  6. Olá Teteu!!

    Seja bem-vindo a Irlanda!!

    Para vc ter sucesso aqui, basta ter coragem, garra e flexibilidade, a vida aqui está difícil sim, mas para quem possui as características citadas acima, torna-se VENCEDOR!! Acredite nisso!!
    Nos primeiros dias aqui, você vai se perguntar: O que eu estou fazendo aqui? As respostas virá com o tempo!!
    Será um tempo de grande amadurecimento na sua vida, as informações virão como avalanche, mas dê tempo ao tempo e tudo vai se encaixar.
    A maioria dos meus amigos que chegaram comigo, passaram por isso e estão vencendo!!

    Atenciosamente,
    Luciana Sousa

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  7. Olááá Luciana..
    Noossa adorei a historia.. digo que realmente a Gaby foi uma vencedora e sortuda tb, essa parada do visto com certeza deve ter sido mt tenso.. hehehe
    Então estou embarcando para Dublin em abril, super mega ansiosa, para estdar na BCT.
    Estou com um pouco de medo pois todo mundo diz, "e a crise? vc vai mesmo p Irlanda?" hehe
    Eu digo q sim, estou louquinha para chegar ai e focar no meu objetivo de aprender ingles e adquirir experiancia.
    Posso dizer que é um sonho e seja o q Deus quiser.
    Fico so um pouco preocupada com trabalho, pois nao posso ficar sem trabalhar... sera q seria mt dificil pra conseguir? Disposiçao e força de vontade é o q nao me falta.ehehe
    Estarei sempre acompanhando seu blog... adorei os posts...

    =)

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  8. Olá Érica, adorei o seu comentário. Obrigada!!

    A Gaby também estuda na BCT, quem sabe vcs se encontram por lá. Esta escola é muito boa e bem localizada. Fez uma boa escolha!!

    Em relação a ansiedade, isso é normal... eu tb fiquei mega ansiosa as vésperas da viagem. Fico feliz em saber que tem GARRA, pq caso contrário, seria decepcionante o intercâmbio para vc, pois é muito difícil quando vc cai em si e vê que está sozinha aqui, com um turbilhão de novas informações, com mil coisas para resolver... mas enfim... tudo isso faz parte do aprendizado.

    Quanto a crise, dá uma olhadinha no post: "Vir ou não vir para a Irlanda", mas te aconselho a trazer pelo menos 2500,00 para se manter nos 3 primeiros meses. Emprego para mulher ainda está mais fácil, pq tem a opção de Au Pair, dá uma olhada no post: "Trabalhando como Au Pair".

    Boa sorte e boa viagem!!

    Lembre-se: JAMAIS DESISTA DOS SEUS SONHOS!!

    Att,

    Luciana Sousa

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  9. O sonho é a unica coisa que ninguém desse mundo pode lhe tirar, mais lembre-se sonhar e ser otimista é maravilhoso, mais sempre sonhe e sempre seja otimista com os pés no chão....

    Parabéns Gaby

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