Atualização 2026: O Choque de Realidade e a Crise do Primeiro Mês
Divulguei tanto o blog Jornada pela Irlanda nos dias que antecederam a viagem que, ironicamente, agora mal encontrava tempo para escrever. Sem um laptop próprio, dependendo de lan houses ou de conexões rápidas, eu registrava o que podia. Aquelas linhas eram o meu diário de bordo para quem pensava em desbravar a Ilha Verde ou simplesmente queria notícias da minha aventura.
Na abertura de um daqueles primeiros posts, anotei uma frase de Júlio Camargo que fazia todo o sentido para o meu momento: "A vida é uma viagem a três estações: ação, experiência e recordação." Eu mal sabia que estava cruzando a fronteira entre a ação e a experiência mais intensa da minha vida.
Minha chegada ao Abraham Hostel foi um primeiro banho de água fria. Dividir o espaço com duas malas grandes e pessoas completamente desconhecidas, que não falavam o meu idioma, despertou uma vulnerabilidade assustadora. O barulho constante, a desorganização e o medo de deixar meus poucos pertences expostos transformaram os primeiros dias em um teste de resistência. Mais tarde, mudei-me para outra hospedagem, o My Place, onde encontrei um pouco mais de estrutura, mas o impacto inicial já havia sido feito.
A primeira semana na Irlanda foi indiscutivelmente difícil. Em vários momentos, olhando para o teto daquele quarto compartilhado, perguntei-me o que de fato tinha ido fazer ali. É o que os intercambistas costumam chamar habitualmente de "a crise do primeiro mês". Eu mal havia chegado e já precisava acionar todos os meus recursos internos para sobreviver ao isolamento.
Nota da Luciana de 2026: Olhando para trás, percebo como a mente humana tenta criar defesas diante do desconhecido. Aquela jovem de trinta anos, com a faculdade de Psicologia trancada no Brasil, estava experimentando na pele o conceito de desamparo e desterritorialização. Quando perdemos nossas referências de lar, cheiro e idioma, o ego vacila. A "crise do primeiro mês" nada mais é do que o luto pelo território seguro que deixamos para trás.
Mas nem tudo era angústia. Logo no primeiro dia, após um banho rápido no hostel para tentar espantar o cansaço do voo, encontrei um amigo e fomos ao famoso Temple Bar. O bairro cultural exalava energia, e entrar em um pub irlandês autêntico pela primeira vez, com música tradicional ao vivo ecoando pelas paredes de madeira, foi uma emoção que ficou gravada na minha memória para sempre. A dinâmica local era fascinante: a maioria dos pubs e boates não cobrava entrada, permitindo-nos circular por vários ambientes em uma única noite.
Em seguida, estendemos a noite na boate Fitzsimons, onde o som passava pelo dance, eletrônica e house, lembrando as melhores pistas do Rio de Janeiro. Foi ali que experimentei o clássico Irish Coffee e a lendária cerveja Guinness.
O preço da euforia, contudo, cobrou seu imposto na manhã seguinte. Acordei com o estômago completamente revirado, reflexo da má alimentação e do cansaço acumulado. O diagnóstico custou caro: sem ter contratado um seguro-saúde prévio, precisei desembolsar 50 euros por uma consulta médica particular. Um verdadeiro absurdo para o meu orçamento apertado, que transformou aquele dia em um hiato perdido dentro do quarto.
Foi o meu primeiro contato com a culinária local, que se mostrou um desafio à parte. A alimentação irlandesa da época parecia excessivamente industrializada, com gôndolas de supermercados repletas de congelados de todos os tipos. Para fugir disso, Dublin oferecia uma profusão de restaurantes indianos, chineses e poloneses, desenhando o mapa da sua imigração através do paladar.
No sábado, o cenário mudou com a chegada da minha amiga Gaby, que vinha de Tullamore, no interior do país, para me visitar. Juntas, mergulhamos na atmosfera vibrante da Oktoberfest local. No domingo, estendemos o circuito cultural caminhando peloSt. Stephen’s Green, observando o movimento de compras na Grafton Street e maravilhando-nos com a arquitetura histórica da Trinity College, universidade fundada em 1592.
Esses pequenos passeios exigiam uma quantidade de caminhada que eu nunca havia experimentado na vida. Em Dublin, pegar um ônibus muitas vezes não compensava: além de as rotas frequentemente pegarem caminhos em contramão devido ao trânsito, a passagem custava 2,20 euros. Se eu dependesse do transporte público para cada deslocamento, as economias iriam embora rapidamente.
Por trás do encantamento do turismo, no entanto, uma tensão constante me acompanhava: a urgência de encontrar um lugar definitivo para morar. Dividir acomodação com outros estudantes era a regra máxima de sobrevivência na ilha e exige paciência. Naquela segunda-feira, o verdadeiro torneio começou. Publiquei minha busca na comunidade de "Brasileiros na Irlanda" no Orkut — que era a grande rede de apoio e o porto seguro de todo imigrante da época — e passei a alternar entre telefonemas ansiosos e longas caminhadas batendo de porta em porta pelas ruas de Dublin, enfrentando o vento e a incerteza com a cara e a coragem.
O processo é simples: escolhe-se o lugar, paga-se o depósito e o primeiro mês de aluguel. O verdadeiro desafio reside em alinhar expectativas de organização, limpeza e convivência. Nesse quesito, felizmente, a sorte esteve ao meu lado. Embora conviver com o desconhecido seja um exercício diário de renúncia, sabíamos que aquele cenário representava um acelerador de amadurecimento.
Após uma semana exaustiva de buscas, um amigo me indicou um apartamento. Visitei o local, aprovei o ambiente e fechei o acordo: 50 euros por semana, além de um depósito imediato de 200 euros — uma exceção à regra local, já que a maioria dos aluguéis em Dublin é cobrada mensalmente.
Eu estava, finalmente, instalada. Como escreveu Maxwell Maltz: "A vida está cheia de desafios que, se aproveitados de forma criativa, transformam-se em oportunidades." Minha primeira raiz em solo irlandês estava fincada, e a segunda semana prometia novos aprendizados.
Centro de Dublin
Experimentei o Irish Coffee e a tão famosa Guiness.

Olá! pretendo ir em breve com meu namorado para Dublin, mas as escolas só me indicam acomodações "salgadas" rs eu entrei no site do My place e gostei muito, só que achei bem barato em vista do que estão me oferecendo. Vc poderia me falar um pouco mais sobre o local? é perto dos locais principais? Obrigada!!
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