Atualização 2026: O Eco dos Meus Primeiros Passos em Dublin
Revisitando estes registros tantos anos depois, sinto uma necessidade profunda de acolher o quanto aquela experiência acabou transformando a minha vida.
Os brasileiros que conheci na época costumavam repetir que as duas primeiras semanas eram as mais difíceis de um intercâmbio, e hoje devo confessar que partilhei exatamente desse mesmo sentimento. O início foi um teste de resistência para a minha estrutura emocional.
No entanto, logo na segunda semana daquela jornada de 2010, a maré começou a mudar. Consegui alugar uma vaga em um apartamento, o que me trouxe uma sensação imediata de alívio e tranquilidade. Mais do que ter um teto definitivo e sair da instabilidade do hostel, o grande ganho foi a identificação com as pessoas da casa. Percebi, aliviada, que partilhávamos dos mesmos valores, objetivos e expectativas em relação ao intercâmbio, o que transformou o novo endereço no meu primeiro porto seguro em terras irlandesas.
Foi também nessa segunda semana que iniciei minhas aulas na escola Euro College. A rotina passou a ser ancorada por quatro horas diárias de estudo, de segunda a quinta-feira. Foi o estímulo necessário para que o meu inglês, até então enferrujado e travado pelo receio de errar, começasse finalmente a fluir.
Nota da Luciana de 2026: Agora com a minha bagagem e escuta de psicóloga, percebo com clareza como a nossa estabilidade psíquica depende da criação de rotinas e de vínculos de pertencimento. Na primeira semana, eu estava imersa no caos provisório e no desamparo de um hostel, sem referências de identidade. Na segunda semana, ao conquistar um quarto compartilhado com pessoas afins e uma agenda escolar fixa, a minha mente pôde finalmente sair do estado de alerta e sobrevivência para entrar no estado de assimilação. O pertencimento é o que cura a ansiedade do estrangeiro.
A escola revelou-se um microcosmo fascinante: havia pessoas vindas de todas as partes do mundo — franceses, alemães, italianos, espanhóis, indianos, chineses e tantos outros brasileiros — convivendo em um espaço que, até então, eu só havia visto em livros ou em cenários de cinema. A União Europeia se manifestava diante de mim como a fusão de múltiplos mundos.
Lembro-me de notar que, naqueles dias de verão, o sotaque que menos se ouvia pelas ruas centrais de Dublin era o próprio inglês irlandês. A cidade se transformava em um desfile multicultural espontâneo. Pessoas de sandálias, óculos de sol, capas de chuva, cabelos desalinhados, turbantes ou tatuagens à mostra conviviam sem a necessidade de enaltecer dogmas ou religiões. Naquelas calçadas, os moradores locais e os poetas e artistas de rua dividiam o mesmo palco, tocando música erudita e tradicional. Violões, violinos, instrumentos de sopro e folclore típico se misturavam às vozes dos pedestres, desenhando uma atmosfera tecida em vários idiomas e delicadas risadas que o tempo não apagou da minha memória.
De repente, o bater de asas de uma pomba rompia inesperadamente a harmonia das vozes espalhadas pela praça. Sempre que o sol se escondia, o verão quase gelado de Dublin era aquecido pelo vapor dos cafés, pelas xícaras de chá e pela alegria das crianças de olhos azuis que corriam pelos parques verdejantes. Os pedestres caminham inspirando uma tranquilidade curiosa, imersos em um passo apressado, mas individualizado.
O lema em um dia ensolarado era simplesmente relaxar. Sem convenções rígidas ou preconceitos visíveis, Dublin parecia abraçar todos os estereótipos do mundo.
Diante da nossa estranheza de recém-chegados, a cidade respondia com um breve sorriso e um acolhedor "You are welcome".
A arquitetura local contava a sua própria história e me fascinava. Os prédios antigos, com seus tijolos aparentes e portas coloridas de tons vibrantes, além das imensas construções de pedra acinzentada, contrastavam com os poucos e exuberantes edifícios modernos — que, para o meu olhar estético da época, pareciam um borrão modernista em uma obra de arte clássica há tempos acabada.
A atmosfera da cidade cruzava uma neblina fria e melancólica com o verde vivo da grama e as folhas das árvores. Essa combinação oxigenava o ar, desacelerava o ritmo frenético do centro e criava um ambiente apaziguado, sereno e profundo.
O que mais me encantava era a chuva insistente que surgia a toda hora, de forma completamente inesperada. Diante dela, todos permaneciam discretos e introspectivos. Os irlandeses se mostravam simpáticos, atenciosos e compreensivos, mas guardavam uma distância respeitosa: não abordavam sem motivo, não beijam ao saudar, não tocavam desnecessariamente e pareciam não se importar com extravagâncias alheias. Aceitavam as manifestações sadias da individualidade sem refutá-las. No entanto, desarmavam toda essa introspecção e se rendiam, com prazer, a uma forte e calorosa gargalhada logo após o primeiro pint de uma cerveja Guinness bem servida.
Eu olhava para tudo aquilo e pensava: Dublin, eu recomendo. Naquele momento, vivendo intensamente a segunda semana, eu começava a entender o valor real de ter deixado a minha zona de conforto no Brasil.
Fazia eco em mim a célebre provocação de Theodore Roosevelt que eu havia guardado como mantra: "É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota." Eu tinha certeza de que estava bem longe daquela penumbra cinzenta. Eu estava viva, vibrando com intensidade na cor e no ritmo de Dublin.
Seguem abaixo algumas fotos dos principais pontos de Dublin:
Post Office
Gaby encontrou o Leprachaun!!
River Liffey
River Liffey
O´Connel Street, esta rua é coração de Dublin
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